domingo, 28 de novembro de 2010

A CRISE NO RIO E O PASTICHE MIDIÁTICO por Luiz Eduardo Soares

Sempre mantive com jornalistas uma relação de respeito e cooperação. Em alguns casos, o contato profissional evoluiu para amizade. Quando as divergências são muitas e profundas, procuro compreender e buscar bases de um consenso mínimo, para que o diálogo não se inviabilize. Faço-o por ética –supondo que ninguém seja dono da verdade, muito menos eu--, na esperança de que o mesmo procedimento seja adotado pelo interlocutor. Além disso, me esforço por atender aos que me procuram, porque sei que atuam sob pressão, exaustivamente, premidos pelo tempo e por pautas urgentes. A pressa se intensifica nas crises, por motivos óbvios. Costumo dizer que só nós, da segurança pública (em meu caso, quando ocupava posições na área da gestão pública da segurança), os médicos e o pessoal da Defesa Civil, trabalhamos tanto –ou sob tanta pressão-- quanto os jornalistas.
Digo isso para explicar por que, na crise atual, tenho recusado convites para falar e colaborar com a mídia:
(1) Recebi muitos telefonemas, recados e mensagens. As chamadas são contínuas, a tal ponto que não me restou alternativa a desligar o celular. Ao todo, nesses dias, foram mais de cem pedidos de entrevistas ou declarações. Nem que eu contasse com uma equipe de secretários, teria como responder a todos e muito menos como atendê-los. Por isso, aproveito a oportunidade para desculpar-me. Creiam, não se trata de descortesia ou desapreço pelos repórteres, produtores ou entrevistadores que me procuraram.
(2) Além disso, não tenho informações de bastidor que mereçam divulgação. Por outro lado, não faria sentido jogar pelo ralo a credibilidade que construí ao longo da vida. E isso poderia acontecer se eu aceitasse aparecer na TV, no rádio ou nos jornais, glosando os discursos oficiais que estão sendo difundidos, declamando platitudes, reproduzindo o senso comum pleno de preconceitos, ou divagando em torno de especulações. A situação é muito grave e não admite leviandades. Portanto, só faria sentido falar se fosse para contribuir de modo eficaz para o entendimento mais amplo e profundo da realidade que vivemos. Como fazê-lo em alguns parcos minutos, entrecortados por intervenções de locutores e debatedores? Como fazê-lo no contexto em que todo pensamento analítico é editado, truncado, espremido –em uma palavra, banido--, para que reinem, incontrastáveis, a exaltação passional das emergências, as imagens espetaculares, os dramas individuais e a retórica paradoxalmente triunfalista do discurso oficial?
(3) Por fim, não posso mais compactuar com o ciclo sempre repetido na mídia: atenção à segurança nas crises agudas e nenhum investimento reflexivo e informativo realmente denso e consistente, na entressafra, isto é, nos intervalos entre as crises. Na crise, as perguntas recorrentes são: (a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a explosão de violência? (b) O que a polícia deveria fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas? (c) Por que o governo não chama o Exército? (d) A imagem internacional do Rio foi maculada? (e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?
Ao longo dos últimos 25 anos, pelo menos, me tornei “as aspas” que ajudaram a legitimar inúmeras reportagens. No tópico, “especialistas”, lá estava eu, tentando, com alguns colegas, furar o bloqueio à afirmação de uma perspectiva um pouquinho menos trivial e imediatista. Muitas dessas reportagens, por sua excelente qualidade, prescindiriam de minhas aspas –nesses casos, reduzi-me a recurso ocioso, mera formalidade das regras jornalísticas. Outras, nem com todas as aspas do mundo se sustentariam. Pois bem, acho que já fui ou proporcionei aspas o suficiente. Esse código jornalístico, com as exceções de praxe, não funciona, quando o tema tratado é complexo, pouco conhecido e, por sua natureza, rebelde ao modelo de explicação corrente. Modelo que não nasceu na mídia, mas que orienta as visões aí predominantes. Particularmente, não gostaria de continuar a ser cúmplice involuntário de sua contínua reprodução.
Eis por que as perguntas mencionadas são expressivas do pobre modelo explicativo corrente e por que devem ser consideradas obstáculos ao conhecimento e réplicas de hábitos mentais refratários às mudanças inadiáveis. Respondo sem a elegância que a presença de um entrevistador exigiria. Serei, por assim dizer, curto e grosso, aproveitando-me do expediente discursivo aqui adotado, em que sou eu mesmo o formulador das questões a desconstruir. Eis as respostas, na sequência das perguntas, que repito para facilitar a leitura:
(a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a violência e resolver o desafio da insegurança?
Nada que se possa fazer já, imediatamente, resolverá a insegurança. Quando se está na crise, usam-se os instrumentos disponíveis e os procedimentos conhecidos para conter os sintomas e salvar o paciente. Se desejamos, de fato, resolver algum problema grave, não é possível continuar a tratar o paciente apenas quando ele já está na UTI, tomado por uma enfermidade letal, apresentando um quadro agudo. Nessa hora, parte-se para medidas extremas, de desespero, mobilizando-se o canivete e o açougueiro, sem anestesia e assepsia. Nessa hora, o cardiologista abre o tórax do moribundo na maca, no corredor. Não há como construir um novo hospital, decente, eficiente, nem para formar especialistas, nem para prevenir epidemias, nem para adotar procedimentos que evitem o agravamento da patologia. Por isso, o primeiro passo para evitar que a situação se repita é trocar a pergunta. O foco capaz de ajudar a mudar a realidade é aquele apontado por outra pergunta: o que fazer para aperfeiçoar a segurança pública, no Rio e no Brasil, evitando a violência de todos os dias, assim como sua intensificação, expressa nas sucessivas crises?
Se o entrevistador imaginário interpelar o respondente, afirmando que a sociedade exige uma resposta imediata, precisa de uma ação emergencial e não aceita nenhuma abordagem que não produza efeitos práticos imediatos, a melhor resposta seria: caro amigo, sua atitude representa, exatamente, a postura que tem impedido avanços consistentes na segurança pública. Se a sociedade, a mídia e os governos continuarem se recusando a pensar e abordar o problema em profundidade e extensão, como um fenômeno multidimensional a requerer enfrentamento sistêmico, ou seja, se prosseguirmos nos recusando, enquanto Nação, a tratar do problema na perspectiva do médio e do longo prazos, nos condenaremos às crises, cada vez mais dramáticas, para as quais não há soluções mágicas.
A melhor resposta à emergência é começar a se movimentar na direção da reconstrução das condições geradoras da situação emergencial. Quanto ao imediato, não há espaço para nada senão o disponível, acessível, conhecido, que se aplica com maior ou menor destreza, reduzindo-se danos e prolongando-se a vida em risco.
A pergunta é obtusa e obscurantista, cúmplice da ignorância e da apatia.
(b) O que as polícias fluminenses deveriam fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas?
Em primeiro lugar, deveriam parar de traficar e de associar-se aos traficantes, nos “arregos” celebrados por suas bandas podres, à luz do dia, diante de todos. Deveriam parar de negociar armas com traficantes, o que as bandas podres fazem, sistematicamente. Deveriam também parar de reproduzir o pior do tráfico, dominando, sob a forma de máfias ou milícias, territórios e populações pela força das armas, visando rendimentos criminosos obtidos por meios cruéis.
Ou seja, a polaridade referida na pergunta (polícias versus tráfico) esconde o verdadeiro problema: não existe a polaridade. Construí-la –isto é, separar bandido e polícia; distinguir crime e polícia-- teria de ser a meta mais importante e urgente de qualquer política de segurança digna desse nome. Não há nenhuma modalidade importante de ação criminal no Rio de que segmentos policiais corruptos estejam ausentes. E só por isso que ainda existe tráfico armado, assim como as milícias.
Não digo isso para ofender os policiais ou as instituições. Não generalizo. Pelo contrário, sei que há dezenas de milhares de policiais honrados e honestos, que arriscam, estóica e heroicamente, suas vidas por salários indignos. Considero-os as primeiras vítimas da degradação institucional em curso, porque os envergonha, os humilha, os ameaça e acua o convívio inevitável com milhares de colegas corrompidos, envolvidos na criminalidade, sócios ou mesmo empreendedores do crime.
Não nos iludamos: o tráfico, no modelo que se firmou no Rio, é uma realidade em franco declínio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidade econômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociais predominantes, em nosso horizonte histórico. Incapaz, inclusive, de competir com as milícias, cuja competência está na disposição de não se prender, exclusivamente, a um único nicho de mercado, comercializando apenas drogas –mas as incluindo em sua carteira de negócios, quando conveniente. O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros são policiais), mantê-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todo tipo e ataques por todos os lados, vendo-se forçados a dividir ganhos com a banda podre da polícia (que atua nas milícias) e, eventualmente, com os líderes e aliados da facção. É excessivamente custoso impor-se sobre um território e uma população, sobretudo na medida que os jovens mais vulneráveis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas. Não só o velho modelo é caro, como pode ser substituído com vantagens por outro muito mais rentável e menos arriscado, adotado nos países democráticos mais avançados: a venda por delivery ou em dinâmica varejista nômade, clandestina, discreta, desarmada e pacífica. Em outras palavras, é melhor, mais fácil e lucrativo praticar o negócio das drogas ilícitas como se fosse contrabando ou pirataria do que fazer a guerra. Convenhamos, também é muito menos danoso para a sociedade, por óbvio.
(c) O Exército deveria participar?
Fazendo o trabalho policial, não, pois não existe para isso, não é treinado para isso, nem está equipado para isso. Mas deve, sim, participar. A começar cumprindo sua função de controlar os fluxos das armas no país. Isso resolveria o maior dos problemas: as armas ilegais passando, tranquilamente, de mão em mão, com as benções, a mediação e o estímulo da banda podre das polícias.
E não só o Exército. Também a Marinha, formando uma Guarda Costeira com foco no controle de armas transportadas como cargas clandestinas ou despejadas na baía e nos portos. Assim como a Aeronáutica, identificando e destruindo pistas de pouso clandestinas, controlando o espaço aéreo e apoiando a PF na fiscalização das cargas nos aeroportos.
(d) A imagem internacional do Rio foi maculada?
Claro. Mais uma vez.
(e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?
Sem dúvida. Somos ótimos em eventos. Nesses momentos, aparece dinheiro, surge o “espírito cooperativo”, ações racionais e planejadas impõem-se. Nosso calcanhar de Aquiles é a rotina. Copa e Olimpíadas serão um sucesso. O problema é o dia a dia.
Palavras Finais
Traficantes se rebelam e a cidade vai à lona. Encena-se um drama sangrento, mas ultrapassado. O canto de cisne do tráfico era esperado. Haverá outros momentos análogos, no futuro, mas a tendência declinante é inarredável. E não porque existem as UPPs, mas porque correspondem a um modelo insustentável, economicamente, assim como social e politicamente. As UPPs, vale dizer mais uma vez, são um ótimo programa, que reedita com mais apoio político e fôlego administrativo o programa “Mutirões pela Paz”, que implantei com uma equipe em 1999, e que acabou soterrado pela política com “p” minúsculo, quando fui exonerado, em 2000, ainda que tenha sido ressuscitado, graças à liderança e à competência raras do ten.cel. Carballo Blanco, com o título GPAE, como reação à derrocada que se seguiu à minha saída do governo. A despeito de suas virtudes, valorizadas pela presença de Ricardo Henriques na secretaria estadual de assistência social --um dos melhores gestores do país--, elas não terão futuro se as polícias não forem profundamente transformadas. Afinal, para tornarem-se política pública terão de incluir duas qualidades indispensáveis: escala e sustentatibilidade, ou seja, terão de ser assumidas, na esfera da segurança, pela PM. Contudo, entregar as UPPs à condução da PM seria condená-las à liquidação, dada a degradação institucional já referida.
O tráfico que ora perde poder e capacidade de reprodução só se impôs, no Rio, no modelo territorializado e sedentário em que se estabeleceu, porque sempre contou com a sociedade da polícia, vale reiterar. Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios –as bandas podres das polícias-- prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia.
Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituições policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de ser reativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?
As polícias são instituições absolutamente fundamentais para o Estado democrático de direito. Cumpre-lhes garantir, na prática, os direitos e as liberdades estipulados na Constituição. Sobretudo, cumpre-lhes proteger a vida e a estabilidade das expectativas positivas relativamente à sociabilidade cooperativa e à vigência da legalidade e da justiça. A despeito de sua importância, essas instituições não foram alcançadas em profundidade pelo processo de transição democrática, nem se modernizaram, adaptando-se às exigências da complexa sociedade brasileira contemporânea. O modelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia à defesa do Estado autoritário e era funcional ao contexto marcado pelo arbítrio. Não serve à defesa da cidadania. A estrutura organizacional de ambas as polícias impede a gestão racional e a integração, tornando o controle impraticável e a avaliação, seguida por um monitoramento corretivo, inviável. Ineptas para identificar erros, as polícias condenam-se a repeti-los. Elas são rígidas onde teriam de ser plásticas, flexíveis e descentralizadas; e são frouxas e anárquicas, onde deveriam ser rigorosas. Cada uma delas, a PM e a Polícia Civil, são duas instituições: oficiais e não-oficiais; delegados e não-delegados.
E nesse quadro, a PEC-300 é varrida do mapa no Congresso pelos governadores, que pagam aos policiais salários insuficientes, empurrando-os ao segundo emprego na segurança privada informal e ilegal.
Uma das fontes da degradação institucional das polícias é o que denomino "gato orçamentário", esse casamento perverso entre o Estado e a ilegalidade: para evitar o colapso do orçamento público na área de segurança, as autoridades toleram o bico dos policiais em segurança privada. Ao fazê-lo, deixam de fiscalizar dinâmicas benignas (em termos, pois sempre há graves problemas daí decorrentes), nas quais policiais honestos apenas buscam sobreviver dignamente, apesar da ilegalidade de seu segundo emprego, mas também dinâmicas malignas: aquelas em que policiais corruptos provocam a insegurança para vender segurança; unem-se como pistoleiros a soldo em grupos de extermínio; e, no limite, organizam-se como máfias ou milícias, dominando pelo terror populações e territórios. Ou se resolve esse gargalo (pagando o suficiente e fiscalizando a segurança privada /banindo a informal e ilegal; ou legalizando e disciplinando, e fiscalizando o bico), ou não faz sentido buscar aprimorar as polícias.
O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de novembro, definiu o caos no Rio de Janeiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como um dia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro. Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz e incorrigível ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores como contumazes e incorrigíveis idiotas.
Ou se começa a falar sério e levar a sério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos mais digno furtar-se a fazer coro à farsa.

LUIZ EDUARDO SOARES
http://interfacepsijus.posterous.com/a-crise-no-rio-e-o-pastiche-midiatico-luiz-ed

sábado, 27 de novembro de 2010

Presentinho...

"MORNIN'" (AL JARREAU) I LOVE IT
Mornin' Mr. Radio
Mornin' little Cheerios
Mornin' sister Oriole
Did I tell you everything is fine...
In my mind

Mornin' Mr. Shoe Shine Man
Shine 'em bright in white and tan
My baby said she loves me and
Need I tell you that
everything here is just fine
In my mind

'Scuse me if I sing
My heart has found its wings
Searchin' high and low
And now at last I know

Mornin' Mr. Golden Gate
I should walk but I can't wait
I can't wait to set it straight
I was shakin' but now I am
makin' it fine
Here in my mind

My heart will soar
With love that's rare and real
My smiling face will feel every cloud
Then higher still
Beyond the blue until
I know I can
Like any man
Reach out my hand
And touch the face of GOD

'Scuse me if I sing
My heart has found its wings
Searchin' high and low
And now at last I know

Mornin' Mr. Radio
Mornin' little Cheerios
Mornin' sister Oriole
Did I tell you everything is fine...
Wooo in my mind

So, won't you get up Oriole
So, won't you get up Cheerios
Wake up Mr. Radio
....it's fine
Here in my mind

Singin' about mornin' little radio
Mornin' little Cheerios
Wake up Mr. Radio
Need I tell you everything
right here is just doing fine
Woo!, in my mind

Yeah!!

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

José e Pilar


Definitivamente a vida é melhor sem solidão. Se hoje temos um discurso tão pró-individualismo, que nem ao menos conseguimos sentar à mesa com nossos pares, eis que estórias de amor, mas nem por isso cheias de tortuosas curvas, se desvelam sobre nossos olhos e nos enchem de esperança no outro. Definitivamente a vida é bem melhor sem solidão.
Tudo isso, ou tão pouco é para expressar minha alegria em ter assistido ao lado de um grande amigo, uma grande obra prima do cinema: José e Pilar.
A película, em forma de documentário sustenta, sobretudo, uma aposta no amor. Um amor, que quero acreditar, existem tantos por aí. Mais ou menos intensos, mais ou menos tortuosos, menos ou mais célebres... mas todos, todos cheios de lirismo, o que não podia ser diferente, tratando-se da relação, ou porque não dizer encontro, da espanhola Pilar Del Rio e José Saramago.
A vida, nesta obra, se apresenta em todas as suas formas, nos mostrando uma intimidade tímida e intensa, de um casal refém da admiração do mundo, tendo que administrar e conduzir, muitas vezes, o que Saramago mais criticou em sua vida: a reificação. Neste caso, a reificação de si mesmo. Coisificação de seus sentimentos, dores, velhice, de seu amor pelo mundo, de sua coerência... e suas idéias.
O comunista e ateu José Saramago e aquela que permaneceu ao seu lado, Pilar, se mostraram efetivamente dispostos a amar-se... e é essa a mensagem: ame, se assim o movimento da vida o quiser e proporcionar. À Jose e Pilar foi dado esse presente. Merecimento? Acredito que sim.
O filme, que demorou três anos para ser concluído, foi co-produzido pela O2 de Fernando Meirelles (Diário sobre a cegueira). O diretor Miguel Gonçalves Mendes acompanhou o casal em suas viagens pelo mundo, mas foi em Lanzarote, pequeno pueblo espanhol que se muniu de uma incrível capacidade de transformar o cotidiano dos protagonistas em pura poesia... e foi isso que vimos... lirismo e poesia. Nunca mais vou me esquecer da cena de quando em São Paulo, lançando o livro “A Viagem do Elefante”, Saramago declara-se cheio de verdade: “se tivesse morrido antes de conhecer Pilar, certamente teria morrido mais velho do que sou”. Assistam... por favor!



quinta-feira, 2 de julho de 2009

EUA! Eu Fui (de novo!)


Uma viagem aos Estados Unidos em meio a uma crise econômica, como a que fiz em maio último, pode ser muito útil, principalmente se vivermos em um país, como é o meu caso, em constantes balanceios financeiros e que atingem, sem sombra de dúvidas, a grande população empobrecida brasileira. Sair de um país onde a regra é uma puta falta de investimento público no acesso aos serviços mais essenciais, me fez pensar se, realmente, há uma crise nos EUA, como tantos dizem por aí. Que há desemprego não há dúvidas. Que há aumento da pobreza, também. Mas não há como questionar que tudo isso é inerente ao capitalismo selvagem, opção de uma nação que chama de “american way of life”, a exclusão de milhões de imigrantes e seus descendentes, de um modelo de vida do qual poucos têm acesso. Quando se vê na televisão, ou no metrô de NY imigrantes com Ipods poderosos, ou tênis de última linha, exaltando o sucesso por ter conseguido atravessar a fronteira com o México, não há como duvidar de que isso é fruto de um trabalho quase escravo, e sobretudo de uma ideologia massificada que transforma o fútil em artigo de primeira necessidade. Então onde está a NOVA crise. Ela sempre existiu, ou estava latente debaixo das engrenagens de um sistema cruel e desumano, onde muitos têm pouco e pouquíssimos detêm quase tudo, que o diga a Forbes.
Reflexões à parte, isso não faz dos EUA um lugar menos fantástico de se visitar, se o olhar puder nos levar a reflexões sobre o que significa a desigualdade e o individualismo crescente na sociedade contemporânea. Estar em loco na matriz da modernidade tecnológica, ou na sede de todas as formas de exclusão nos faz pensar (e aí reside uma mea culpa) sobre o fascínio que aquele país exerce sobre mim e muitos, que têm na ponta da língua o discurso da igualdade X desigualdade, riqueza X pobreza e por aí vai. Um paradoxo sem dúvida.
Pois é... eles estão lá. Continuam “estatísticos, com gestos rígidos, sorrisos límpidos e olhos penetrantes no fundo dos que olham, mas não no próprio fundo. Os americanos representam grande parte da alegria existente nesse mundo”, como diz Caetano. Estão lá... soberanos. Fudidos, segundo os analistas de economia, mas soberanos. Continuam vendendo milhões de cuecas CK todos os dias, tênis da Nike aos lotes a cada brasileiro classe média e, lógico, que fabricados às custas de trabalho escravo conseguido na nova Meca da exploração do trabalho humano e barato: a Ásia. Todos estão lá. E nós (outra mea culpa) comprando alucinadamente no limite do cartão! O fato é que, se suportei tanta contradição entre discurso e prática, é porque talvez este discurso não tenha sido tão convincente assim, ou eu seja um tremendo filho da puta. Mas ao menos (ufa) ainda tenho a capacidade de discernimento. Oxalá tome intento e consiga, algum dia, coadunar completamente discurso e prática.

domingo, 3 de maio de 2009

L'AMITIÉ... Fraçoise Hardy

Muitos de meus amigos vieram das nuvens,
Com o sol e a chuva como bagagem.
Fizeram a estação da amizade sincera,
A mais bela das quatro estações da terra.

Têm a doçura das mais belas paisagens,
E a fidelidade dos pássaros migradores.
E em seu coração está gravada uma ternura infinita,
Mas, as vezes, uma tristeza aparece em seus olhos.

Então, vêm se aquecer comigo,
e você também virá.

Poderá retornar às nuvens,
E sorrir de novo a outros rostos,
Distribuir à sua volta um pouco da sua ternura,
Quando alguem quiser esconder sua tristeza.

Como não sabemos o que a vida nos dá,
Talvez eu não seja mais ninguém.
Se me resta um amigo que realmente me compreenda,
Me esquecerei das lágrimas e penas.

Então, talvez eu vá até você aquecer
Meu coração com sua chama.

O Declínio do Império Americano e As Invasões Bárbaras

Queridos amigos, perdoem-me a ausência, mas escrever é um ato solitário, e ultimamente não tenho estado tão só, embora saiba que a solidão não significa necessariamente estar fisicamente longe de outrem, mas que é, efetivamente um estado de espírito. Mas o trabalho me consome, dando-me a ilusão de que estou sempre junto a outros. Por isso a ausência neste blog.
A providencial solidão me fez reparar um grave erro nestes feriados. Assisti a alguns filmes obrigatórios para uma pessoa que procura, na medida do possível, refletir sobre a vida.
“O declínio do império americano” (Le déclain de l’empire americain -1986) e “Invasões bárbaras”( Les invasions barbares - 2003) são filmes obrigatórios, se temos algo a saber sobre a enrascada que é viver em um mundo, onde a busca pelo sentido da vida parece não ter fim. E quando digo não ter fim refiro-me a imensidão de pensamentos e teorias construídas para explicar o até agora o difícil de explicar: somos todos iguais ou somos todos diferentes? No que vale a pena investir, no individual ou no coletivo? Podem as metateorias, ainda explicar, inclusive, coisas da ordem do individual e do subjetivo. O fato é que foram forjadas nestas últimas décadas, em especial as últimas do século XX, um cabedal de subjetividades que buscam, incessantemente, seu lugar neste mundo de diferenças e onde a luta pela igualdade de condições de vida e dignidade são amortecidas pela fúria de uma globalização desigual e desumana. Talvez por isso os filmes que recomendo tenham mexido tanto comigo. A reflexão não pode ser um fim. Deve, antes de tudo, ser um meio de ultrapassar, ou ao menos impedir que o individual(ismo) sufoque o coletivo, que traz consigo o direito fundamental à dignidade humana.
Os intelectuais dos filmes de Denys Arcand são parte de uma elite pensadora canadense, mas cujo acúmulo de saber erudito não lhes garante o almejado frescor da vida, a inexistência da dúvida, das dores da alma, das frustrações, das incertezas. Mas o que garante o pote de ouro no final do arco-iris? As películas não têm a pretensão de responder isso. Mas talvez a fala de um dos principais personagens de “Les invasions barbares”, homem à beira da morte, Rémy, personagem magistralmente interpretado por Rémy Girard, e que reflete, naquele momento, sobre os excessos impostos pela modernidade, nos dê algum caminho: “Eu não consegui encontrar um sentido...”. Será este o mistério? Vejo isso como o desafio. Não me restam dúvidas que o encontro desse sentido é ao mesmo tempo individual e coletivo, subjetivo e objetivo, espiritual e material. Eis o nó da questão. Administrar essas tensões binárias não é fácil. A grande mensagem dos filmes é a presença providencial dos amigos, que quando verdadeiros, nos apontam algumas possibilidades a seguir, ainda que corramos o risco (salutar) de estarmos no caminho errado. Faz parte do jogo da vida. E da morte, como bem ressaltam os filmes de Arcand.
Sobre o diretor e os filmes:
Denis Arcand é um cineasta canadense, que em suas ultimas obras deixa transparecer o ressentimento com a tradição católica com a qual esteve envolvido na infância e início da adolescência, coisa que não consegue esconder em “Jesus de Montreal” (1989) Em suas obras têm procurado discutir com profundidade questões que podem ser consideradas feridas narcísicas da sociedade contemporânea. Isso fica claro em filmes como “Amor e restos humanos”(Love and human remains – 1993... maravilhoso!) no qual discute a questão da AIDS, e os indicados “O Declínio...” e “As Invasões...”, onde problematiza, através de seus personagens, questões como a sexualidade, fidelidade, intimidade, envelhecimento e sobretudo a amizade. Recomendo com entusiasmo e com a cara-de-pau de quem já poderia ter assistido!

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Sobre o corpo e suas possíveis leituras...


Já faz algum tempo que tenho me debruçado sobre as questões que envolvem a estética corporal. Isso não por acaso. Numa cidade como o Rio de Janeiro, onde as práticas corporais alcançam o status de obrigação, entendo que se faz necessário um cabedal de reflexões sobre os limites e as possibilidades de vida que envolve a busca de um corpo perfeito. Há outro ambiente mais propício que os eventos momescos?
Outro estímulo (ou consequência) para alimentar tal interesse acadêmico foi a recente pesquisa que realizei com mulheres soropositivas, em um ambulatório de HIV/AIDS de um hospital geral da zona portuária do Rio de Janeiro. Tal investigação, como parte das reflexões de minha Dissertação de Mestrado, evidencia um importante processo de autoexclusão da esfera da sociabilidade, em função das mudanças corporais acarretadas pelo uso contínuo de medicamentos antiaids. Nesta pesquisa constatou-se, além das importantes perdas acarretadas pela AIDS e suas consequências biopsíquicas, perdas objetivas com significativos rebatimentos nas condições concretas de vida, dentre elas o acesso ao trabalho, propiciadas, entre outras coisas, pelo afastamento do ideal de beleza contemporâneo.
Se as mulheres que carregam o vírus daquela que é considerada a epidemia do século se inserem nessa lógica cruel de idealização da beleza, com outras mulheres ocorre um processo similar, se considerarmos o fenômeno de massa que envolve a construção destes ideais.
Em minhas reflexões tenho utilizado algumas autoras que têm se dedicado a uma crítica responsável, porém contundente, a forma como tem se manifestado o desejo pelo alcance do corpo perfeito. A partir das reflexões da antropóloga Miriam Goldenberg (IFICS) e da psicóloga Júnia Vilhena de Novaes (PUC-Rio) pude ter acesso a autores clássicos na reflexão daquilo que passamos a chamar, de forma reducionista, de “ditadura da beleza”. Questões como obesidade, corpos sarados e envelhecimento e aparência saudável, tomam um formato capaz de tecer um importante retrato da cultura brasileira nas últimas décadas, cujos moldes apontam para o crescimento exacerbado das academias de ginástica, o consumo de produtos de beleza e rejuvenescimento, cirurgias plásticas, além das dietas milagrosas e perigosas.
Miriam Goldenberg, em recente artigo, defende que o corpo na sociedade contemporânea é um capital, que, além da significação ligada ao exercício do trabalho, é percebido como um importante vetor de ascensão social. Ou seja, um corpo belo, magro e jovem torna aquele que o possui alguém dotado de superioridade, porque conquistado por meio de investimento, trabalho e sacrifício. Sendo assim, a antropóloga assinala, a partir das idéias do sociólogo francês Pierre Bourdieu, que o capital na contemporaneidade tornou-se mais fluido, de forma a abranger aspectos como o econômico, cultural, social, político, simbólico... e físico.
Tal relação da superioridade com o ideal de corpo perfeito sugere uma posição de distinção diante daqueles que não conseguem alcançá-lo. Tal prerrogativa de aceitação e exigência torna-se complexa e cruel, se levarmos em conta que os atributos idealizados tornam-se naturalizados e não encarados como um construto de uma determinada época e contexto histórico. Sendo assim, a autora agrega em suas reflexões as ideias de Marcel Mauss, que sugere ser a “imitação prestigiosa” a alavanca dos desejos e da construção dos corpos e comportamentos correspondentes ao alcance desses ideais e relativos a um determinado tipo de sociedade. Sendo assim, a eleição de determinados modelos (atrizes, modelos, cantoras, atletas) ordena subjetivamente a imitação destes, que por sua vez promove uma falsa impressão do fácil alcance do sucesso.
A questão da feiúra tem sido um dos objetos de estudo de Junia de Vilhena. Não muito distante das discussões de Goldenberg, a autora reflete acerca da tirania do consumo, na busca de um corpo perfeito e distante do ideal de distanciamento da beleza. Sendo assim, é importante pensar que um ideal de beleza corresponde a um determinado ideal de feiúra, ditados por um mercado ávido por vender produtos milagrosos de beleza e “naturalmente necessários”. Talvez a grande contribuição de Vilhena seja o vislumbre de uma ameaça que paira sobre essa lógica, na medida em que esses ideais estéticos se aproximam de forma substantiva das teorias racistas que justificaram e ainda justificam as grandes atrocidades da humanidade. Sendo assim, nessa lógica, o gordo, além de feio, torna-se culturalmente dotado de características moralmente negativas, um atributo moral e não apenas biológico, porque ser magro tornou-se um valor social. Ainda utilizando-se a obesidade como exemplo, pode dizer que a gordura figura como um dos piores desleixos, que se traduz como um modo inadequado no lidar com o corpo. Tal processo geralmente causa, entre outras formas de exclusão, a lipofobia (horror à gordura), sintoma social que forja, entre outras coisas, a ideia de que se trata tão somente de uma questão de esforço pessoal e não um produto da natureza, muitas vezes relacionado com graves patologias. Sendo assim, nos deparamos com um conjunto de discursos que normalizam o corpo ideal: o científico, publicitário, tecnológico, médico e porque não dizer o filosófico que legitimam práticas de alcance a corpos considerados perfeitos, que longe de serem regras, são exceções. Ou alguém encontra com assiduidade, no meio da rua, corpos como o de Gisele Bündchen?
Desta forma, o esforço de inserção e alimentação dessa discussão, como sinaliza Vilhena, é o de superar a visão simplista, que reduz o cuidado do corpo ao narcisismo ou à alienação, o que sugere questões imersas no caldo cultural da globalização, do mundo do consumo e com repercussões na construção dos ideais estéticos de homens e mulheres e crianças.
Nesse sentido, fomentar um debate em torno dos ditames culturais em torno dos ideais de beleza, sinalizam uma responsabilidade com a vida. Ou é possível ignorar que tais questões acarretem que o cultural, com fenômeno socialmente construído, tenham repercussões no biológico? Um claro exemplo é a anorexia nervosa, distúrbio psiquiátrico, cujo uma das principais causas é uma preocupação exagerada com o peso corporal. Tal patologia reflete um desacordo entre a imagem corporal idealizada e a real ou possível de se alcançar, refletido diante de nossos olhos, no espelho. Isso faz com que faz com que uma das principais características desse distúrbio alimentar seja uma equivocada noção da imagem corporal, que leva a um verdadeiro autobiocote em termos de alimentação, acarretando, não raras vezes, a morte.
Voltarei a esse tema, não dividem, por considerar um das feridas narcísicas (me fazendo valer de um termo cunhado por Freud) da sociedade contemporânea.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Obama lá, não aqui!


A grande expectativa no Brasil deste início de ano fica por conta da posse de Barack Obama. O novo presidente dos EUA tem gerado uma onda de otimismo, como se fosse a salvação de décadas de exploração e imperialismo norteamericano. Em um momento em que a economia estadunidense passa por uma violenta crise, acho estranho que a expectativa seja mais nossa (pelo menos é o que me parece), do que deles. Mas a explicação deste entusiasmo talvez resida na baixa autoestima do brasileiro, mais especificamente do negro brasileiro. Isso me leva a pensar que há um “que” de ingenuidade na esperança depositada na posse do primeiro presidente negro da história dos países desenvolvidos e como se nossas mazelas estivessem com os dias contados.
Talvez a explicação mais viável para esse equivocado entusiasmo seja um desconhecimento da dinâmica racial que acompanha Brasil e EUA em suas especificidades. As mazelas dos negros americanos ainda estão lá, e a capital Washington é uma prova cabal disso. Tive a oportunidade de conhecer DC em abril do ano passado e como todo bom assistente social fiz questão de percorrer bairros periféricos da capital americana. Claro que presenciei um grande, para não dizer imenso, contingente negro em condições precárias de existência e desemprego.
Washington tem hoje uma das maiores populações negras dos EUA e um dos maiores índices de criminalidade, o que me faz associá-la a precariedade e pobreza de um pais que optou por um capitalismo selvagem como forma de gerar um suposto (e desigual) desenvolvimento. Mesmo assim, o contingente de negros na universidade é relevante o bastante para gerar uma considerável classe média negra americana, fruto de um bem sucedido sistema de cotas, do qual inclusive o presidente Obama foi beneficiado. Se as questões racistas entre os estadunidenses ainda não estão suficientemente resolvidas, e ainda geram conflitos raciais violentos, o drama da intolerância se agrava a partir de uma nova configuração da problemática racial, proveniente do inesgotável processo imigratório. Os ‘cucarachas” estão lá e não deixam dúvidas, fazendo o trabalho sujo que o americano médio não quer fazer. As fronteiras ainda estão a todo vapor, despejando, literalmente, milhares de ilegais todos os meses, em um país que só pode oferecer frio (frieza) e trabalho semiescravo, mas invocando estrategicamente a todo momento o “american way of life”, como forma de permanecer no topo do mundo.
Aqui as coisas são diferentes. Ainda há uma luta pela implantação das cotas. A classe dominante não quer “largar o osso” e afirma tratar-se as cotas de um racismo às avessas. Parece se esquecer, porque conveniente, de séculos de escravidão que enriqueceu seus antepassados e alimenta, ainda hoje, suas aplicações nos paraísos fiscais do Caribe. O mito da democracia racial, do qual Gilberto Freire foi multiplicador e idealizador com seu “Casa Grande e Senzala”, ainda tenta dar conta de que vivemos em um paraíso racial, multiétnico e colorido, isento de grande conflitos. Estatísticas mentirosas procuram demonstrar numericamente a chegada do negro brasileiro à classe média, como se as favelas e guetos lotados de pretos fossem espaço de conforto e qualidade de vida. As prisões estão lotadas de homens negros e os filhos pretinhos desta população têm grande chance de não terminar sequer o nível fundamental.
Mesmo assim continuamos a depositar no pobre Obama nossas frustrações, expectativas e sonhos não realizados, como se a história dos negros brasileiros e americanos fosse uma só. É importante, considero, estabelecer sim uma ponte entre o racismo nos dois paises, considerando a grande diápora negra, consequência da concretização da base do capitalismo contemporâneo. Entretanto não é menos importante relativizar os sentimentos dos negros americanos com a chegada de Obama ao poder, na medida em que, se houver progressos na questão racial americana, serão na e para a sociedade americana, coberta de possibilidades concretas de mudança, haja vista a trajetória do novo presidente. O que sobrar para o Brasil, a curto e médio prazo, pode ser apenas uma passageira elevação na autoestima, que deve passar, quando percebermos que a nova estrela pop da política internacional governará tão somente para os americanos. Mas devo dizer que fiquei feliz e... que é bom ter um negão lá, lá isso é. A ver!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Sobre o amor e a morte...




O que se pensa ou se fala sobre as relações interpessoais, ou ainda, as relações que convencionamos chamar de amorosas ou afetivo-sexuais, envolvem um grande cabedal de reflexões. Todos sabemos teorizar ou filosofar sobre o amor, sobretudo quando estamos apaixonados ou lidamos com situações de discurso afeto em nosso dia-a-dia. Em meu cotidiano profissional costumo ouvir de tudo um pouco, ainda que às vezes somente possa dar espaço a catarse pura e imediata. Aquela que libera a respiração para outras falas que me interessam em meu processo interventivo. Mas não adianta. Tudo o que ouço está ligado, extremamente ligado, ao afeto. Não há como ignorar as falas, que sendo da ordem das relações humanas e afetivas, promovem em mim necessidades de reflexão. Daí tenho pensado no amor e na morte. Seriam instâncias meramente opostas? Não seria reducionista atribuir à falta de amor, o desejo de morrer? Mas seria esse desejo, uma aproximação concreta e consciente da morte física e biológica?
Emile Durkheim em “O Suicídio” (1897) ousou dizer que o autoextermínio teria uma razão,uma motivação social e não individual. Sendo assim o sociólogo e pai da sociologia descreve três tipos de suicídio: o egoísta, no qual o indivíduo se afasta de sua condição humana; o anômico ou original, em que se vêem obstruídas as possibilidades de se estabelecer normas e regras que valorizem a vida e o altruísta, suicídio por lealdade a uma causa. Durkheim estava parcialmente certo ou relutantemente errado, o que se pode observar com as idéias revolucionárias de Sigmund Freud acerca do inconsciente.
Contemporâneo idéias de Durkheim, Freud, sobre a morte, ou “quase” sobre a morte, fundamenta em sua extensa obra o conceito de “pulsão de morte”. Este reside na argumentação que tem como referência a biologia (e seus parâmetros positivistas)e a mitologia grega, quando vai de encontro ao mito de Aristófanes, cujo objetivo foi alcançar uma vida amorosa favorável – sua pulsão de vida – de acordo com a leitura Freudiana.
A pulsão destrutiva - de morte – sugere, assim, um retorno ao inanimado, à inércia que procede a vida. E é essa negação do “eu” vivo e constante, do pulsar da vida biológica, que o pai da psicanálise avalia como um conflito psíquico, que tem como base desejos que são aparentemente antagônicos, porque presentes na vida de todos nós, em maior ou menor intensidade. Esse é o aparente antagonismo entre a vida (Eros) e a morte (Thânatos), ao qual todos, todos, estamos sujeitos.
Em tempos de masoquismos e autoboicotes há de se fazer uma diferenciação entre estes e o amor, segundo a psicanálise inaugurada por Freud. Os primeiros se aproximam do adiamento da satisfação, da recusa da condição desejante do prazer, porque autodestrutivo. Ao amor, nos cabe vinculá-lo à sublimação que, para além das pulsões, permite o exercício do prazer, não só pelo sexo, mas em atividades psíquicas elevadas, artísticas ou ideológicas. Afastando-se dos estados de infelicidade ou comportamentos antissociais, o amor sublime parece produzir, se sublime de fato, um afastamento do “eu” inadequado à vida que pulsa. O amor não pode, portanto, sufocar. Não deve ser aquele que se justifica pelo discurso inoportuno do “eu te amo” que avança cegamente sobre o outro (ou dos outros) – que descaracteriza esse outro e que por isso pretende do outro se apropriar.
Assim, os amores doentios significam uma captura da essência do outro, que não é mais nada, senão a causa dos desejos (de TODOS os desejos) de quem supostamente se ama. Na ilusão do outro tratar-se de um “ser total”, transformamos nosso pares na fonte do impossível, do inatingível, do inumano... do perfeito.
Desta forma, o amor sublimado tem como fim gerar o belo, ainda que por caminhos tortuosos que podem percorrer, por exemplo, o estado fugaz da paixão (ainda que às vezes seja esse um caminho deliciosamente perigoso) – mas que pode avançar em direção à ética, ao sofrimento do(s) outro(s), à escuta e compreensão daquele(a) que percebemos como fonte de nossos desejos . O amor então caminha em direção à sublimação, porque se pretende sublime, ou como disse Sócrates: “O amor parece ser um intermediário entre os homens e os deuses”.
Falemos mais do amor, esse sentimento tão banalizado em nosso dia-a-dia e que por ser tão pouco compreendido fornece elementos medíocres para folhetins baratos, sem substância e sem significado para a vida que pulsa.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Feliz 2009!


Ontem recebi uma ligação de uma pessoa a quem prezo muito. Trata-se de Gabriel, amigo que conheci quando morei e vivi dias maravilhosos na Espanha, país que aprendi a amar! Estudei com Gabriel na Universidade Autônoma de Madri, mais especificamente em uma disciplina que discutia as relações de gênero, ministrada por uma amiga em comum, Cristina Sánches Muñoz. Gabriel é uma pessoa especial. Logo nas primeiras semanas de aula fomos a um dos inúmeros cafés da universidade, o que fez que durante o curso levássemos para a sala de aula os papos acalorados que tínhamos durante um churro e outro. Isso fez, e honestamente é um mero detalhe nessa estória de amizade, que engrenássemos um namoro, que fez com que minha estada na capital espanhola se tornasse mais colorida e feliz! Viajamos pra caramba e aprendi com este espanhol de Villa Verde Alto, coisas que a universidade se recusa a ensinar: humildade intelectual e coragem de falar coisas que nem sempre a maioria, porque careta demais, gostaria de ouvir. Voltei para o Brasil e Gabriel, pouco depois, se casou com uma feminista judia, amiga em comum, e recentemente me disse ter se convertido ao islamismo, para desespero da mãe, católica ferrenha. Ruth Meyer, amiga e mulher de Gabriel, agora espera uma filha, que se chamará Raquel.
Na conversa de quase duas horas no MSN, em que conversamos sobre a vida e seus descompassos, este irmão me revelou a preocupação e responsabilidade em botar no mundo uma mulher. Como garantir a felicidade de um filho, perguntava? O que priorizar na educação? Como ensinar uma mulher a se proteger de um mundo ainda machista? Me recordo de, no Marrocos, numa atitude panfletária e juvenil, sairmos juntos catando o lixo que alguns turistas babacas jogavam no chão das medinas, só para provocar um debate sobre a consciência ecológica. Não fomos felizes nos debates provocados, mas éramos felizes por termos com quem compartilhar idéias e reflexões em meio à falta de consciência de pessoas que se dizem civilizadas. Gabriel me disse uma coisa que me emocionou: “quisera Alah prover para Rachel amigos como tu , para que pudesse se sentir amparada em momentos de reivindicação por civilidade e amor ao próximo”. Fiquei feliz e emocionado, embora ache, honestamente, que a pequena filha de meu amigo mereça coisa melhor! Ando menos panfletário, admito. Mas ainda acho que seja nossa maior responsabilidade SER alguém disponível, para que o outro se sinta acolhido em suas angústias e questionamentos. Isso não é fácil. É um exercício diário, de total desprendimento daquilo que levamos a vida inteira fazendo, alimentando nosso ego e nosso individualismo. Estar disponível, acredito, é estar aberto às diferenças, sabendo que o objetivo é ser igual no direito de viver com dignidade. Por isso procede e muito a preocupação de Gabriel. Afinal, o que estamos fazendo para que Raquel encontre um mundo melhor?
Honestamente penso que avancei um pouco, após 42 anos de vida, no sentimento de alteridade, de me colocar no lugar do outro, não por questões puramente religiosas, mas porque considero, sobretudo, uma atitude ética, onde o coletivo deve ser o fim, e não o meio para benefícios individuais. Talvez Gandhi tenha sido um dos maiores sábios do século passado, quando disse que devemos ser nós mesmos, a mudança que queremos para o mundo e assim, projetarmos no outro, esses avanços, em direção à um mundo justo e fraterno. Sei das dificuldades que isso envolve, mas pelo menos Gabriel pode continuar contando comigo para enfrentar àqueles que jogam no chão das medinas da vida sua falta de consciência. Isso já é um começo. Um bom começo também seria no dia-a-dia de nossas ações cotidianas e aparentemente banais: respeitarmos as filas, darmos lugar aos idosos nos coletivos, jogarmos lixo nas lixeiras, darmos bom dia aos vizinhos, ter uma atitude de carinho com o outro sempre que estivermos mal humorados, não termos sentimentos de vingança... definitivamente não é uma tarefa fácil. Mas refletir sobre isso, certamente fará com que amanhã avancemos em direção a um mundo melhor, onde a pena (o pior dos sentimentos, em minha opinião, porque nos coloca acima do outro, e não em condições de igualdade), dê lugar ao sentimento mais nobre que podemos ter: o amor.
No final de minha “terapia” com Gabriel, não pude deixar de perguntar por que este, casado com uma judia, não se converteu ao judaísmo, optando pelo islamismo. Meu amigo, quando achei que já tinha me ensinado o suficiente no último dia do ano, me respondeu: “Porque me converter ao islamismo pode me proporcionar exatamente o que desejo de uma relação: o respeito e a absoluta tolerância às diferenças. O que mais poderia ser um exemplo de amor para minha filha Raquel, do que isso?” Seja bem-vinda Raquel. Tio Dionísio já te ama profundamente.

FELIZ 2009!!!!!!!!!!!!!!!

domingo, 14 de dezembro de 2008

100 anos de Burle Marx


“O território é o dado essencial da vida cotidiana”, já dizia o grande geógrafo Milton Santos. Eu humildemente acrescentaria, já que as idéias deste gênio levam a tal conclusão, essencial da vida humana. Aquela que pulsa entre as ruas e avenidas, aparentemente dispostas pelo destino imposto por engenheiros e arquitetos. O grande geógrafo enunciava que a noção de espaço é indivisível dos seres humanos que o habitam, e estes o modificam todos os dias. Sendo assim o território envolve, ao mesmo tempo, forma e função. Trata-se, assim, de uma construção simbólica coletiva, contínua e cotidiana, operada por todos nós, que habitamos nosso território. Talvez por isso seja preciso generosidade ao lidarmos com espaço onde estamos inseridos. Uma generosidade que passa pela forma como olhamos para esse espaço, interferimos nesse espaço e principalmente, como o preparamos para gerações futuras. Fernando Pessoa dizia que “os deuses são deuses porque não se pensam”. Se pensar, ou pensarmos diariamente como estamos lidando com nossas condições objetivas e subjetivas de vida, significa resgatar nossa condição humana de forma coletiva. Afinal, como diria Hanna Arendt, "Quem habita este planeta não é o Homem, mas os homens”.
Foi pensando nisso que percorri com entusiasmo a exposição (gratuita!) do Paço Imperial, em comemoração aos 100 anos de nascimento Roberto Burle Marx. O que se expõe é a materialização da generosidade de um homem, em relação ao espaço em que viveu, e no qual vivemos nós, agora.
A exposição revela um Burle Marx que poucos conhecem. Pintor, desenhista, escultor, cronista, cenógrafo, músico e joalheiro, o homem que conhecemos como paisagista usou a arte como mediadora para concretização de um sonho. Tornar pleno de luz, cor e beleza, o que antes poderia ter como destino o concreto armado, foi seu grande desafio.
Herdeiro do modernismo, Burle Marx usou e abusou do cubismo e do abstracionismo em prol de projetos visuais singulares e modernos. O que parecia impossível diante de fortes influências européias (em especial a inglesa e francesa), se tornou viável diante do investimento em uma arte voltada para as especificidades brasileiras e tropicais. Por isso, Lauro Cavalcante, curador da exposição, inclui o artista entre o que chama de “artistas totais”. Aqueles a quem o destino reserva a árdua tarefa de fazer a intercessão entre as artes e o espaço territorial. E é isso que vemos na exposição.
No térreo já podemos encontrar um belo jardim, projeto para a área interna do Museu Nacional de Belas Artes (RJ). No primeiro pavimento, ao som de Schubert, Mahler, Brahms e Beethoven (seus compositores prediletos), nos deparamos com lindos painéis de tecidos. O pincel de Burle Marx também revela um artista preocupado com o todo, ou como disse Mário Pedrosa já em 1958 no Jornal do Brasil: “ Os pincéis de Burle Marx são ditados para um pensamento sintético, que leva cada detalhe a participar da idéia do todo (...). E o próprio esquema de cores não é mais independente, produto do mero gosto impressionista do pintor. Agora (com Burle Marx) tudo é forma, espaço.
E haja espaço para tanta arte e sensibilidade. Estão expostos na antiga casa real, projetos famosos de paisagismo no Brasil, como o do Aterro do Flamengo (RJ), Parque da Pampulha (BH), Palácio Gustavo Capanema (Ministério da Educação – RJ), Parque do Ibirapuera (SP), e internacionais como o da Praça Rosa de Luxemburgo (Berlim). Esses projetos revelam uma quase obsessão pela beleza, aliada à funcionalidade. Ou como disse o próprio Burle Marx: “Em relação à minha vida de artista plástico, da mais rigorosa formação disciplinar para o desenho e a pintura, o jardim foi, de fato, uma sedimentação de circunstâncias. Foi somente o interesse de aplicar sobre a própria natureza os fundamentos da composição plástica de acordo com sentimento estético de minha época.” E assim, o artista inseriu em suas paisagens criadas, a antes negligenciada flora brasileira.
Trata-se de um privilégio para nossa cidade abrigar uma exposição desse porte, não somente pela qualidade e organização, mas porque o Rio foi a terra na qual viveu esse paulista generoso, capaz de pensar a vida cotidiana e o espaço no qual vivemos, como arte.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Rebobine (e veja), por favor!!!


Poucas vezes ri tanto com um filme. Sou meio desconfiado com comédias americanas, mas tem uma galera fora do esquemão holywoodiano, a do baixo orçamento, que adoro. Incluo nesta seleta lista os filmes aparentemente babacas de Michel Gondry (Brilho eterno de uma mente sem lembranças). “Rebobine por favor” (Be Kind Rewind), que estreiou hoje, é hilário! Poucas vezes se pode ver um roteiro que prime pela originalidade e ao mesmo tempo divirta (quase mijei de tanto rir), sem subestimar a inteligência do espectador. O filme é engraçado sim, mas o pano de fundo é de uma ácida crítica aos blockbusters que arrecadam milhões de dólares, mas que na maioria das vezes não fazem pensar ou sequer divertem.
Pra começar, e até justificar tanto humor rasgado e o nonsense do filme, a história se passa, não em New York (onde se ambientam 9 entre 10 filmões americanos), mas no insípido, inodoro e incolor estado de New Jersey, parte dos fundos da cosmopolita NY. Bingo! Um filme que fala da possibilidade de fazer cinema sem dinheiro e que subverte a lógica das altas produções americanas, valorizando o trash o lema “ uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”, não poderia ter sido mais feliz na escolha da locação.
O roteiro é despretensioso, mas genial. Seguinte: um tiozinho (Danny Glover), que tem uma locadora de filmes VHS, se vê em apuros quando a especulação imobiliária chega às suas portas. Um prédio bem velho (tipo Rio Antigo), onde supostamente viveu uma lenda do Jazz é seu único bem e fonte de sobrevivência. Na era dos DVDs ( que estavam começando à chegar), a pequena locadora vive às moscas, e o simpático tiozinho resolve reagir e investigar formas de modernizar seu negócio, prestes a falir. Desavisado, viaja, mas deixa o empreendimento nas mãos de dois malucos-beleza (Jack Black e Mos Def) que se vêem às voltas com uma acidental desmagnetização das fitas de vídeo. Isso basta para que, diante da necessidade de locar as fitas, resolvessem... REFILMAR, REPRODUZIR as películas!! Não, vocês não entenderam mal. As toscas criaturas resolveram colocar dentro das fitas, as suas versões trash de arraza-quarteirões como... Robocop, Caça-fantasmas, Conduzindo Miss Dayse, Hora do Rush, 2001 uma Odisséia no Espaço, O Rei Leão... e cujo o público, apaixonado pelas novas versões (suecadas), solicitassem. O auge da criatividade (ou desespero) fica por conta do momento em que os três, agora com a ajuda de uma outra criatura insana, têm a brilhante idéia de fazer as refilmagens com os próprios interessados, ou seja, os clientes da locadora. As cenas são tão hilárias e capazes de deixar Zé do Caixão ou Afonso Brazza com dores abdominais. Eu fiquei, e por isso recomendo. Diversão certa cambada!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A AIDS E OS EFEITOS DA “LONGA DURAÇÃO” E DA MEMÓRIA



Como tradicionalmente acontece no dia 1º de dezembro, o mundo volta-se (cada vez menos, é verdade) para reflexões acerca da AIDS. Como fenômeno histórico e imerso no caldo cultural da glogalização, acho oportuno fazer algumas considerações sobre o que considero como determinantes para que algumas questões, de ordem moral e religiosa, ainda persigam a AIDS.
O início oficial AIDS, na década de 1980, trouxe à tona uma série de questões que, relacionadas a uma doença sem cura, potencializou um debate acerca do que, comumente, chamamos de preconceito. Temas antes debatidos e polarizados através de grupos progressistas e conservadores, geralmente situados no âmbito das ciências sociais e humanas mas, também, inseridos na moral religiosa, agora encontravam-se envolvidos no mundo da ciência natural, em especial na medicina, que anunciava aos quatro ventos a descoberta de uma doença incurável.
As particularidades que cercaram (e ainda cercam) a AIDS residem no fato desta estar relacionada a minorias historicamente discriminadas e ser, dentro de uma definição médica, uma doença sexualmente transmissível.
Estas duas particularidades, logo identificadas pela comunidade científica, geraram, ao longo destas duas últimas décadas, um vigoroso debate que trouxe à tona a chamada dimensão social da epidemia. Não que as outras doenças já existentes também não a tivessem, mas o binômio AIDS-morte e sua relação com grupos de homossexuais, usuários de drogas (injetáveis) e profissionais do sexo, bem como a relação de todos estes elementos com a prática sexual, revelou-se um emaranhado de análises que conduziram, inclusive, às primeiras medidas de enfrentamento da doença, sejam elas governamentais ou não governamentais. As duas particularidades enunciadas e sua presença consciente ou inconsciente, sejam no senso comum ou no discurso científico, podem ser definidas como um processo de elementos de “longa duração” que acompanham a AIDS desde os primórdios, infiltrando-se na memória coletiva, ainda que sendo parte de uma história considerada recente, como a da epidemia de AIDS. A problematização dos conceitos de “longa duração” e “memória” e suas possibilidades de análise no âmbito do Serviço Social, constituem, portanto, o eixo de análise deste artigo.(1)


Aids, “longa duração” e “memória”

A análise histórica dos fatos tem conseguido ultrapassar o “tempo curto”, ou de uma sucessão de fatos situados apenas na amplitude de nossos olhos. Ou seja, o alcance dos elementos subjacentes aos fatos histórico-sociais tem sido contemplado pela chamada “nova história” através de um constante resgate da perspectiva histórica de longa duração ou como afirma Braudel (1992a:355): “É na massa inteira da história que realidades de “longa duração” impõem sua presença, sempre prontas para forçar o curso das coisas”. Neste sentido, a história apresenta-se como um testemunho de familiaridades que se ligam a “uma corrente de acontecimentos, de realidades subjacentes” (Braudel, 1992b: 45) e interligados um ao outro. Como exemplo significativo, uma análise do papel da história das instituições, religiões e civilizações revelariam muito menos novidades que conceberiam nossos historiadores do “tempo curto”, avançando-se em direção ao desvelamento de elementos subjacentes à uma história meramente factual e de uma dimensão estritamente particular.
A partir desta perspectiva de uma história cuja duração social apresenta-se como substrato da vida atual, pode-se reconhecer no (ad)evento da descoberta da AIDS, uma série de elementos que, se na origem da epidemia já traziam substantivos elementos históricos relacionados à homossexualidade, uso de drogas e prostituição , por outro lado pode afirmar que o motor da história reconduziu estes mesmos elementos, agora relacionados à uma doença sem cura e disseminada particularmente por via sexual, a novas análises e práticas correspondentes.
Um elemento imprescindível, quando se trata de enfatizar o processo de “longa duração” na epidemia de AIDS, é a memória, como depositária deste processo estrutural e, que assegura “ora o retraimento, ora o transbordamento” do tempo e da história, como recurso dos mecanismos de manipulação da memória coletiva” (Le Goff, 1994: 426). Cabe ressaltar que tais processos são sobremaneira potencializados pela revolução informacional, a qual a sociedade contemporânea tem testemunhado, e onde há uma reconfiguração dos limites de tempo e espaço que atravessam com imagens ou fisicamente (à longa distância e em curto período de tempo) uma memória outrora oral ou escrita.
Com relação à homossexualidade e seu peso histórico na constituição de uma “idéia” acerca da AIDS, a contribuição de Cerqueira e Mott (2002:49) é indispensável, tendo em vista a observância dos autores quanto à relação da homossexualidade com as grandes tragédias humanas, como a destruição de Sodoma e Gomorra, a queda do Império Romano, a destruição da ordem dos templários etc, além da disseminação da mais dramática epidemia mundial: a AIDS.
Portanto, termos como peste gay, câncer cor-de-rosa, ou a expressão mais estigmatizada e que denota as vítimas desta epidemia, aidético, conectam a “longa duração” e a memória, não só a elementos históricos longínquos, mas acrescidos de novos ditames históricos que já acompanhavam a homossexualidade antes do (ad)evento da AIDS.
No caso dos profissionais do sexo atingidos pela epidemia que estava por se instalar, infere-se que os códigos morais que, por séculos, acompanharam as práticas chamadas de prostituição, somente corroboraram a idéia de uma doença relacionada à “promiscuidade” sexual, o que vem sendo desconstruída hoje, devido ao alto índice de mulheres casadas e optantes pela monogamia, infectadas pelo HIV. Mesmo assim, reconhecem-se, ainda hoje, os efeitos da “longa duração” de elementos que acompanham a prática dos profissionais do sexo através dos tempos e que podem ser traduzidos em programas ou projetos que “tentam” tirar estas pessoas da prostituição.
Estas iniciativas, e este é um importante dado a ser analisado, podem estar relacionadas a uma dimensão moral, tendo em vista uma significativa participação das diversas religiões no contexto de respostas frente à AIDS, na medida em que os diferentes “mandatos ou vocações” das inúmeras denominações religiosas, especialmente as de origem judaico-cristãs, são acrescidos de variadas propostas de intervenção (Galvão, 1997:109).
Sendo assim, não se pode deixar de reconhecer o fenômeno religioso como um importante vetor de contribuição de uma “longa duração” de ditames morais e de uma propagação desta dimensão moral no âmbito da memória coletiva e que repercute não só contra o mercado de trabalho que envolve a prostituição, mas, também, em relação à homossexualidade e ao uso de drogas, a partir de juízos de valor.(2)
Quanto ao uso de drogas, pode-se inferir que fatores como leis que criminalizam o usuário em detrimento de políticas de enfrentamento como a distribuição de seringas descartáveis (redução de danos), bem como políticas de prevenção específicas, só para citar dois exemplos, já demonstram o quanto às realidades subjacentes a drogadição e que denotam a pluralidade do tempo social e seu caráter estrutural, podem determinar respostas eficazes à epidemia de AIDS.
A exata dimensão que se coloca à frente de nossos olhos, é que demandam, portanto, um desvelamento destas estruturas ou as “(…) permanências ou sobrevivências no imenso domínio cultural” (Braudel: 1992b: 50), social ou econômico, e que requerem, também, “uma renúncia da temporalidade linear em proveito dos tempos vividos múltiplos, nos níveis em que o individual se enraíza no social e no coletivo” (Le Goff: 1994: 473).
Cabe ressaltar que Braudel, ao sistematizar seu conceito de “longa duração”, mesmo em uma perspectiva que privilegia em determinados momentos, o determinismo geográfico, reconhece no pensamento de Marx a originalidade do que poderíamos chamar de análise estrutural, ultrapassando uma história que privilegia o tempo curto, avançando, ainda que de maneira limitada, em direção à categoria totalidade.
No que tange ao conceito de memória, de Le Goff, convém afirmar que pode-se perfeitamente relacioná-lo com o processo de produção de consciência da classe trabalhadora, conforme enunciado por Marx, uma vez que a memória para Le Goff e, conforme anteriormente sinalizado, pode ser um poderoso mecanismo de manipulação coletiva se utilizado por forças conservadoras.
Neste sentido, o diálogo com teóricos que podem ser considerados pela literatura marxiana e pela tradição marxista, como representantes científicos da classe burguesa, podem ter um reconhecimento também científico de suas análises acerca das realidades sócio-econômico-culturais, cabendo ao interlocutor superá-las, tanto a partir de uma teoria verdadeiramente crítica, quanto pela consciência de que “existem diferentes pontos de vista científicos que estão vinculados a diferentes pontos de vista de classe.” (Lowy, 1985: 104).
Sendo assim, defendo que as representações que temos acerca da AIDS, hoje, ainda guardam significativos elementos que surgiram nos primórdios da epidemia e que, lamentavelmente, reforçam preconceitos e estigmas vinculados a forças conservadoras e retrógradas, que por sua vez geram atitudes individuais e coletivas excludentes.
(1) Segundo revela o artigo de Olívia Pavani Naveira, Fernand Braudel e Jacques Le Goff situam-se entre os autores da chamada Escola dos Annales, cujas propostas encontram-se em dois eixos centrais que são a reinvindicação de uma história experimental científica e a convicção de uma unidade em construção entre a História e as Ciências Sociais. Delimita-se , assim, como objetivo primordial tirar a História de seu isolamento disciplinar, liberando-a para envolver-se em temáticas e metodologias existentes em outras disciplinas, revelando a intenção de fazer uma história de caráter interdisciplinar. Cabe ressaltar uma importante diferença entre a referida escola e o marxismo utópico, tendo em vista que não existe nos Annales uma teoria de transformação social e de luta de classes. O “evento’ histórico, nesta pespectiva, não é, portanto, ruptura, transformação profunda e estrutural. NAVEIRA, Olívia Pavani. “Os Annales e as suas influências com as ciências sociais”. www.klepsidra.net – acesso em 16/06/2006.
(2) Os hemofílicos também foram identificados como potenciais portadores do vírus HIV, em uma época em que o sangue, proveniente dos bancos de sangue particulares, eram de qualidade estritamente duvidosa, tendo um controle quase nulo do Estado sobre as referidas práticas. O diferencial desta população, é que frente à opinião pública, eram considerados “vítimas inocentes” da infecção pelo HIV. PARKER, Richard. A Construção da Solidariedade. AIDS, sexualidade e política no Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1992: 35.

Bibliografia
BRAUDEL, Fernand. Reflexões Sobre a História. São Paulo: Perspectiva, 1992b.
__________. História e Ciências Sociais: a longa duração. Escritos sobre a história. São Paulo: Perspectiva, 1992a.
CERQUEIRA, Marcelo e MOTT, Luiz. AIDS e suas Interfaces com a Violência. Mimeo, 1999.
COUTINHO, Carlos Nelson. “Pluralismo: dimensões teóricas e políticas”. In Cadernos ABESS, n.4. São Paulo: Ed. Cortez, 1991.
GALVÃO, Jane. “As respostas religiosas frente à epidemia de HIV/AIDS no Brasil In Parker, Richard (org). Políticas, Instituições e Aids: enfrentando a epidemia no Brasil”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, ABIA, 1997.
.LE GOFF, Jacques. Memória, história e memória. Campina: Ed, UNICAMP, 1994.

As paradas gays e o marasmo existencial


Aconteceu no último dia 23 de novembro, a terceira parada gay da Zona Leste de São Paulo. Acho que é a temporão. Não me surpreendi com a data. Há muito tempo o dia 28 de junho (Dia Internacional do Orgulho Gay) deixou de ser uma referência para os eventos da militância LGBTTS. Isso se deve a vários motivos. Mas o principal, considero, são as especificidades de cada lugar onde ocorre parada. Estas especificidades relacionam-se, em primeiro lugar, à boa vontade e interesse das autoridades em liberar o espaço onde vai ocorrer o evento (em geral a avenida mais movimentada da cidade ou bairro). Como as paradas ultimamente viraram um grande celeiro de votos, o dilema é quase sempre resolvido.
Outra especificidade está ligada aos patrocínios e apoios. Tendo em vista que a população alvo mostra-se extremamente consumidora, os apoios acabam surgindo (boates, sites de relacionamento, saunas, além do imprescindível apoio público), viabilizando apoio logístico/estrutural. Considero este o mais importante. Não consigo imaginar uma parada LGBTTS sem os famosos trios elétricos, e que transformam um evento pretensamente político em um grande micareta. Claro que o teor político das paradas está capengando, mas não se pode negar que nunca, o chamando movimento gay, teve tanta visibilidade, mesmo que às custas de matérias sensacionalistas e ridículas. Mas voltemos às especificidades. Talvez o menos preponderante para a viabilização destas manifestações seja as diferenças que encontramos dentro do próprio movimento. Como se pode observar, está cada vez mais nítida uma grande cisão entre o que chamamos genericamente de homossexuais. Nesta imensa fauna de indivíduos ávidos por igualdade podemos distinguir um grande espectro de sexualidades e seus comportamentos correlatos, o que transforma as paradas gays em um grande espetáculo, que faz jus ao seu símbolo maior: o arco-íris. Temos hoje como representantes desses matizes entendidos, travestis, transexuais, bichas-loucas, boysinhos, barbies, caminhoneiras, lesbian-chics, gilettes etc, etc... É muita informação, acreditem. E essa é a riqueza que guarda cada parada gay. Dependendo do lugar onde ocorrem, esses personagens da vida real aparecem com mais ou menos intensidade ou quantidade, caracterizando de maneira explícita o modus vivendi de cada território. Traduzindo: a forma como a população GLBTT é tratada ou vista pelo local.
As paradas surgem, portanto, como uma alternativa (legítima) ao marasmo da cidade/localidade, o que faz com que a relação gay-alegria se acentue. Se isso é uma estratégia, eu não sei. Mas acredito tratar-se de uma faca de dois gumes, que pode voltar em forma de estigma e exigências estapafúrdias (todo gay tem a obrigação de estar alegre). Mas a estratégia anti-marasmo está dentro de um contexto maior. Trata-se de uma tendência global, que Guy Debord chamou há quatro décadas atrás de “sociedade do espetáculo”: “Nosso tempo, sem dúvida... prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser”, afirma o pensador. Nessa lógica, as micaretas gays cumprem bem seu mandato, quebrando o marasmo social. Espero que quebrem, também, o marasmo existencial de milhares de homens e mulheres, que continuam, por motivos de ordem estritamente pessoal, a reprimir seus desejos mais intensos.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Ultima Parada - 174


Grande parte do sucesso do cinema nacional, na atualidade, deve-se à descoberta do filão violência – injustiça social (Pixote, Cidade de Deus, Tropa de Elite, etc). Como outrora tivemos o filão da sexualidade gratuita, principalmente nas comédias de mau gosto da Boca do Lixo, hoje enveredamos por um esforço de reflexão sobre a questão social, que constrói homens, mulheres e crianças desafortunados e engolidos por um sistema cruel e desigual. Digo que é um esforço, porque o compromisso de um filme com o orçamento de “Ultima parada – 174”, que estreiou no último dia 24, justifica-se pela necessidade de fazer com que milhões de pessoas assistam a película. Isso implica em um certo compromisso com a grande indústria cinematográfica, sem dúvida. Em síntese: deve render dindim e prêmios. O Filme de Bruno Barreto mostra-se competente nisso e merece ser visto, não só pelo esforço reflexivo e capricho da direção, mas principalmente pelas excelentes atuações (destaco Cris Vianna, Michel Gomes e Marcello Melo).
Impossível não fazer comparação com o documentário de José Padilha (Ônibus 174), mas trata-se de uma outra proposta. O filme de Barreto traz elementos que conseguem aglutinar um bom roteiro (Mauro Mantovani), crítica social, boa qualidade, alto orçamento e um lançamento competente (Globo Filmes, Moonshot Pictures, Movie & Art, Paramount Pictures -135 cópias), sem a pieguice que às vezes impregna filmes com proposta social. Apesar de a sinopse dizer tratar-se de um filme “sobre a natureza humana” e não sobre os problemas sociais brasileiros, fica impossível não associar as misérias humanas ao que as determinam: as condições desumanas de vida. O filme consegue trazer à tona a velha discussão que sempre lança a pergunta: de onde surgem os atos ilícitos praticados por crianças e adolescentes? Sem dúvida fica claro, muitas vezes no filme, tratar-se de um grande esquema que suga destes jovens suas potencialidades criativas e de vida. Como pode uma criança sobreviver a condições subumanas de vida, sem que isso não as tornem frias... agressivas? Não me parece possível estabelecer um corte entre o indivíduo e a sociedade que o constrói. Esse é o grande mérito do filme. Consegue estabelecer de forma competente um elo entre o particular e a estrutura onde esse particular está inserido. E Barreto não mede esforços para que tal conexão seja feita. Utiliza-se de muitos elementos simbólicos do que eu, particularmente, chamo de luta de classes: a mãe viciada que perde seu filho para o bandido da favela, o filho que cresce nas mãos do bandido perigoso da favela, o filho que se torna um bandido, a mãe convertida e arrependida que procura o filho perdido, sexo entre meninos e meninas em situação de rua, a heroína de classe média da ONG, que dá murros em ponta de faca, a truculência policial, pobreza, desigualdade, revolta e por aí vai. Fora estes jargões da ficção engajada, o filme consegue manter uma crítica interessante ao que chamamos de desigualdade social e, ainda assim, falar de questões da ordem do particular, do indivíduo, da natureza humana. Escorrega em alguns exageros, como o caso da estagiária no ônibus que, alheia ao que está acontecendo, tenta justificar um atraso para o chefe, diante de uma arma em suas fuças. Mas tudo bem... nada é perfeito. O filme vale a pena ser visto, pela coragem de mostrar que, qualquer criança ou adolescente que tenha passado pelas humilhações pelas quais passaram os muitos Sandros, poderiam ter seu dia de fúria. Tomara que o filme consiga convencer-nos de que a violência, praticada por crianças e adolescentes infratores, é infinitamente menor que a violência que sofreram durante toda a vida.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Eloá e a violência de gênero




Esperei passar um pouco a comoção para escrever sobre o caso Eloá. Assassinatos de mulheres sempre mexem comigo. Minha biografia, de certa forma, está vinculada ao feminismo. Sou filho de uma mulher forte e vencedora, o que não foi o suficiente para cortar bons dobrados nas mãos dos homens. Isso gerou elementos críticos em minha consciência, a ponto de militar em uma causa que aparentemente não é minha. Uma causa cujo discurso oficial dá como perdida, todas as vezes que aparecem na mídia casos como o de Eloá.
O que mais me revoltou nesse triste episódio, fora o assassinato propriamente dito, foi a forma como agiu a polícia, que a todo momento parecia querer justificar a violência praticada pelo assassino. Como se estivesse autorizando (porque vem de autoridades constituídas) a todo o momento, o seqüestrador a, em nome de um suposto amor, praticar tal ato de violência. O pior dessa estória, é que tal justificativa se dá sob uma nova roupagem, travestida de um psicologismo barato, e com o suposto objetivo de salvar a todos. De fato todos foram salvos. Menos a grande vítima: Eloá. A velha roupagem deste crime é o nosso velho conhecido crime passional. Em poucas palavras: um homem traído, violentado em sua masculinidade, seduzido pelos terríveis atributos de “Eva”, pode tudo, inclusive maltratar, violentar, matar... E isso se justifica porque cabe a mulher cumprir de forma exemplar seu destino de perfeita. As mulheres não podem ter desejo e quando ousam usar de uma transgressora liberdade podem ser (e quase sempre o são), punidas. Liberdade para as mulheres ainda implica em sanções. Como ousa uma mulecota de 15 anos terminar com um homem de 22, arrumar um outro namoradinho e sair ilesa dessa estória? Não pode! O coitado tinha de surtar! Essa foi a impressão que tive, com a história oficial que me estava sendo narrada, tanto pela polícia, quanto por parte da imprensa sensacionalista. Isso me entristece, pois parece que foi estéril o esforço de feministas na década de 70, que picharam os muros das grandes capitais, com a palavra de ordem “Quem ama não mata”. O sangue de Ângela Diniz parece não ter sido suficiente para desmontar a farsa do homem vítima da mulher devoradora, a qual cabe a justiça feita pelas próprias mãos. Décadas mais tarde, Maria da Penha Maia quebrou o silêncio de anos de violência praticada por seu marido, dando origem a lei que leva o seu nome. Importante passo para a criminalização de atos de violência contra a mulher. Mas esses fatos históricos e dolorosos, além de todos aqueles que carecem de visibilidade, mas que estão presentes em nosso cotidiano, parecem não ter sido suficientes para fazer com que os crimes praticados em decorrência do gênero sejam tratados com rigor. Tenho a nítida impressão de que se Eloá não tivesse sido morta, a possibilidade de o assassino ser perdoado pela opinião pública, e quiçá pela justiça, seria grande. O que não entra em minha cabeça é a mistura que faz entre ser honesto (trabalhador!) e mau caráter, machista. Por isso, nós homens, temos de entrar nessa luta da violência contra as mulheres. O que ocorreu em Santo André foi um caso de violência de gênero. Não o caso de violência de um homem trabalhador apaixonado e obsecado, contra a adolescente sedutora e alegre. Foi um caso que se perpetua sob novas roupagens e que dão origem a inúmeras formas de violência contra a mulher, cujas sutilezas não permitem que as identifiquemos como parte da problemática de gênero.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Ensaio Sobre a Cegueira


Fiquei surpreso com a notícia de que uma associação de deficientes visuais está preparando um protesto, no dia da estréia do filme “Ensaio Sobre a Cegueira” nos EUA. Segundo a matéria, veiculada no “GLOBO” no último dia 28 de setembro, a associação considerou ofensivo o tratamento dado à cegueira no filme de Fernando Meirelles. Quero deixar claro que sempre apostei no protagonismo dos movimentos sociais e considero legítimos os questionamentos do grupo americano. Só não concordo com o argumento de que são ofensivas e desrespeitosas as questões levantadas sobre a cegueira no filme. Sendo assim, coloco as seguintes questões:

Por que um protesto somente contra o filme e não contra o livro de José Saramago, que vendeu milhões de exemplares e do qual foi adaptado com absoluta fidelidade, o filme?

Será que o enfoque dado à cegueira foi devidamente compreendido? Uma cegueira que ultrapassa o físico e avança em direção ao simbólico?

O argumento de que há um cego de nascença, com atitudes éticas questionáveis, desqualificam todos os cegos? Ainda nessa lógica, o fato de ser cego garante que o indivíduo seja coerente e ético?

Estas são questões com as quais me deparei quando li esta notícia.


O filme de Fernando Meirelles é simplesmente maravilhoso. Um soco no estômago, eu diria.
Em uma cidade não identificada começam a ocorrer casos de uma cegueira inexplicável, aparentemente contagiosa e que se manifesta através de uma nuvem leitosa. Os atingidos pela “cegueira branca”, identificados, são imediatamente encarcerados pelo Estado repressor em um espaço sem nenhuma estrutura. Nessa jornada, a mulher de um médico acometido pela repentina falta de visão, consegue romper o cerco do isolamento, sendo a única pessoa a enxergar, no grupo de cegos que aumenta a cada dia. Com o passar do tempo, afloram nesta estrutura improvisada e segregadora, os instintos mais animalescos. As necessidades básicas não satisfeitas fazem emergir os sentimentos mais obscuros e que, em condições normais, são encobertos pela civilidade gerenciada pelo “superego”.
O livro e o filme conseguem dar a exata dimensão de nossos limites éticos, diante das necessidades mais elementares de nossa existência. A fome, os preconceitos, os medos, a insegurança, o ódio, a cobiça... Estas são algumas das mazelas com as quais se depara nesse universo saramaguiano, tão próximo de nós. Até que ponto a cultura consegue escamotear nossos instintos soterrados em uma suposta civilidade? Será que em nosso dia-a dia, não criamos estratégias que encobrem atitudes animalescas e instintivas, porque justificadas por discursos oficiais religiosos, filosóficos ou científicos? E que, por isso mesmo, são legitimados em nosso dia-a dia? O fato é que a crise moral que se abate sobre os cegos de Saramago é uma crise que se observa na esfera do comum, do familiar... do banal. Por isso choca. Exatamente, porque nos identificamos com ela. A arte proporciona isto. A ficção se torna um espelho que quebraríamos, se fosse possível, por ser doloroso e difícil de se digerir, quando se reconhece nele, nosso próprio reflexo. A cegueira metafórica expressa no filme nos submete (ou deveria nos submeter) a um exame reflexivo de nossas atitudes diárias com o outro e, conseqüentemente, com nós mesmos, na medida em que existimos, também, a partir do outro. Mas nem tudo está perdido. A cegueira também é capaz de fazer com desperte o sentimento de humanidade. O sofrimento pode provocar o sentimento de alteridade. De se colocar no lugar do outro. A partir da dor dos outros, como diria Susan Sontag, podemos reconstruir nossa trajetória. Compreendo todos estes limites, não só por meio de nossas motivações individuais ou subjetivas, mas como parte de um sistema cruel, que aposta no individualismo, como fonte de sobrevivência de um capitalismo feroz e avassalador. Ensaio Sobre a Cegueira deixa claro que a solução reside no coletivo, ainda que devamos respeitar as individualidades.

domingo, 21 de setembro de 2008

Feijoada Imperial, samba, amigos e cerveja...combinação perfeita!


Samba, feijoada e cerveja sempre são uma ótima combinação. Eu pelo menos adoro! Conectadas com esse contexto borbulhante (como diria meu amigo Ney Flávio), as escolas de samba já começaram a temporada de feijoadas pré-carnavalescas. Tudão!!! Ontem fui à Feijoada Impérial, que simplesmente me proporcionou uma das melhores noites de minha vida (sem exagero!!). Além da boa feijoada da Tia Néia, a galera é super receptiva e oferece um mix legal de pessoas, que só poderia terminar em samba de boa qualidade, com os grupo Só Preto Sem Preconceito, Senzala, Toninho Gerais e a bateria frenética de Mestre Átila. Eu adoro o Império Serrano, apesar de ser portelense. A escola da Serrinha, durante muito tempo foi meu point, numa fase em que freqüentava Madureira direto. Foi na época em que morei em Realengo e me acabava ao som dos agogôs mais famosos do carnaval carioca.
Sabe aquela tarde/noite onde tudo é perfeito! Pois é... foi ontem! Juntos, dando nos cadeirões no camarote, estavam pessoas tão diferentes, mas com um único objetivo: se divertir pra caramba. E foi isso que fizemos!!! Claro que a anfitriã da noite, minha amiga poderosa Silvia, top das tops, foi fundamental!!! Silvia recebe como ninguém e esbanja simpatia por todos os lados. Ela consegue administrar beleza, simpatia e simplicidade como ninguém. Valeu Silvinha!!
Além de tudo isso, consegui a oportunidade de reencontrar uma galera que não via fazia um tempão e que amo pra caramba! Só isso já valeria a ida ao Império. Mas o reencontro superou todas as minhas expectativas. Foi simplesmente uma fusão perfeita, de pessoas super divertidas. A cerveja gelada,vinda em baldes de gelo, foi uma ótima solução da escola para suprir a sede do povo que lotou a quadra da Edgard Romero! Bebi horrores!!! Mas o que me emocionou mesmo, foi ter conhecido Tia Maria do Jongo da Serrinha, figura ilustre, não digo nem do Império, mas do Brasil e que ficou um bom tempo com a gente no camarote. Só quem trabalha com o resgate e manutenção da cultura negra nesse país sabe como é difícil desenvolver projetos nessa área. E isso Tia Maria faz com muita dignidade e como poucos. Aliás, dignidade é uma coisa que essa guerreira exala por todos os poros. Simpática, tirou da bolsa um álbum de fotos que é uma preciosidade, mas que, nem de longe, exprime a importância que ela tem pro Brasil e pra todos que, através do jongo, conseguem mostrar o que de melhor representa nosso país. Aliás, eu disse isso para ela!!! Morro tranqüilo agora! Depois fui com uma galera pro Coração de Mãe, ao lado do Madureira Shopping. Apesar de ter acabado a luz (!), este pagode estava lotaaaaado! Seguindo a ferveção, claro, fomos pra rua da Portela rir mais um pouco e dá-lhe mais cerveja e o clássico podrão de fim de noite! É... Madureira continua mandando!!!! Salve Madureira!!!! Salve a amizade!! Salve o samba!!!!

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Reflexões sobre o acesso ao trabalho


Foi numa mesa de bar que um grande amigo me disse que não achava o trabalho humano tão importante assim. Eu que acho que o trabalho continua sendo central na vida humana e que sempre gosto de levantar uma polêmica, ainda mais com amigos, iniciei um debate ali mesmo. Mas como se tratava de uma confraternização, achei que não convinha continuar a celeuma, pois sempre corre-se o risco de sermos indelicados em algum momento. E indelicado é uma coisa que me esforço para não ser. Por isso resolvi escrever este post, que parece meio fora de contexto. Puro desabafo!!! Esse é pra você Steffan. Segura!!
Sempre desconfiei do discurso oficial (leia-se governamental) de que os índices de desemprego estão caindo. Cheguei à conclusão, depois de muito queimar a mufunfa e refletir sobre o assunto, que o discurso não estão de todo errado. Pior. Está tremendamente equivocado. O principal instrumento do qual dispõe os órgãos de medição dos níveis de desemprego em qualquer lugar do mundo é... a procura por emprego. Ou seja, se muitas pessoas procuram emprego, a taxa de desemprego é alta. Seja uma busca nos órgãos governamentais ou nas milhares empresas de RH espalhadas pelo mundo. O problema é que as pessoas não estão procurando emprego porque estão trabalhando. O que não significa que estejam empregadas. Quando digo empregadas quero dizer, trabalhando com e sob determinadas garantias trabalhistas. De proteção social mesmo. Aquelas que garantem o que já estamos carecas de saber e nem sempre usufruir: carteira assinada, FGTS, férias, décimo terceiro, desconto de INSS, vale transporte, etc, etc, etc. Na verdade um grande contingente não está empregado. Não tem vínculos trabalhistas que lhe permitam gozar destes direitos historicamente conquistados. Antes, estão inseridas em um mercado de trabalho informal, precarizado, temporário. Que de tão precário, não permite que paguem sequer o INSS, nem na forma de contribuinte individual, a antiga autonomia. Isso é barra!
No caso do Brasil estas pessoas, homens, mulheres e crianças, são vítimas de uma modernização tardia de processo de industrialização (também tardio), cuja reestruturação produtiva exige um alto grau de conhecimento de tecnologias, cuja maioria das pessoas, principalmente as de gerações mais antigas, não tiveram a chance de acompanhar e portanto não dominam. São excluídos, tanto por uma questão geracional (os mais velhos têm mais dificuldades de arrumar trabalho, isso é fato), quanto por não conseguir acessar tecnologias de ponta exigidas pelo concorrido mercado de trabalho. Mas a exclusão não se resume aos mais balzaquianos. Os mais jovens (digo os jovens pobres) também têm tido dificuldades de alcançar os requisitos admissionais de empresas que exigem, além de um acesso à educação formal, habilidades cada vez mais complexas, tanto na indústria, como no setor de serviços. Neste último, a absorção da mão de obra se dá de uma forma ainda mais cruel e onde vamos encontrar uma saga de desprotegidos como camelôs (a Uruguaiana não me deixa mentir), as trabalhadoras domésticas, os vendedores autônomos (Avon, Natura, etc), e toda uma gama de trabalhadores e trabalhadoras que, por estar minimamente ganhando o mínimo para sua subsistência, não vão gastar dinheiro de passagem para se candidatar à postos de trabalho cuja resposta, provavelmente será negativa. Ouvir NÃO o tempo todo cansa, penso eu. Eu cansaria. Além disso, o discurso que domina o (escasso) mercado de trabalho é aquele que exalta o empreendedorismo como vantajoso (seja seu próprio patrão!). Diante disto, o melhor de fato, segundo o discurso da moda, é partir para atitudes empreendedoras que dissimulam uma falsa liberdade, que na realidade se transforma em fortes dores de cabeça quando, por algum motivo, não se pode trabalhar (os casos de doenças são típicos) e não se pagou o INSS. Trabalhar para si mesmo envereda por um caminho tortuoso que, não raramente, acaba com o tempo livre a que todos tem direito. Perde-se a noção do que é trabalho e o que é lazer ou descanso (se é que há descanso!). No caso das mulheres, esta situação é ainda mais cruel. Geralmente ocorre uma dupla jornada de trabalho, que faz com que as mulheres acumulem atribuições historicamente imputadas ao sexo feminino (como cuidar da casa, dos filhos, marido, dos mais velhos), com atividades (mal) remuneradas. A flexibilização das leis trabalhistas foi o tiro de misericórdia em cima de uma população sofrida e cuja desculpa esfarrapada, tenta nos fazer acreditar que trabalhadores têm o mesmo poder que patrões em uma mesa de negociação salarial. Tudo isso diante de grande crise sindical, com sindicatos (vide a CUT e outras centrais sindicais), que foram cooptados pelo governo. Mentira quando se fala que a flexibilização das leis de proteção de trabalho vão gerar mais emmprego! Todos sabemos que o enorme contingente de reserva que está por aí, necessitando de trabalho, está pronto para assumir trabalhos em condições ultrajantes por pura necessidade. Pronto Steffan! Estou aliviado!