domingo, 14 de setembro de 2008

Velho Casanova...


Confesso que o fim do Cabaré Casanova como espaço exclusivamente GLS me pegou de surpresa. Não sou o tipo saudosista, nem acho que tudo é para sempre. Mas o cabaré foi singular na minha vida e me sinto na obrigação de render uma homenagem, ainda que singela, a este espaço tão significativo, já que não vi nenhuma manifestação do gênero. Fiquei realmente triste, apesar de há muito tempo não freqüentar a casa de som e público eclético e democrático. Me parece que este fim precoce e sem sentido caracteriza também o fim de uma era. Sei perfeitamente que a casa, que sempre gozou de prestígio entre seu público alvo, também sofreu, paradoxalmente, com a revitalização da Lapa e sua transformação em espaço descolado. Afirmo que se trata de um paradoxo, pois esta revitalização, ao invés de incrementar o cabaré, diluiu sua clientela em outros espaços, não necessariamente GLS, agora tão em moda na nigth carioca.
O Casanova foi um espaço histórico e de inegável resistência da comunidade gay no Rio de Janeiro. Numa época em que não se falava em direitos civis de gays, lésbicas e todo o arco-íris, lá estava o velho “Cabaré” transgredindo padrões de comportamento, inclusive em plena ditadura militar. Juntava em seu vasto repertório humano e musical diferentes tendências e preferências. Talvez na região central do Rio, os espaços mais significativos tenham sido, além do próprio Cabaré, o famoso Boêmio´s, que fechou as portas em 1998 e que foi agora transmutado definitivamente, penso eu, em restaurante natureba. Reza a lenda que, quando ainda era “Bifão”, a casa recebeu uma das mais promissoras transformistas da noite gay carioca, mas que já havia passado pelo concorrido fervo da Lapa, antes de uma rusga com a estrela da casa, Marlene Casanova. Tratava-se de Laura Clayper, que mais tarde, não sei porque cargas d’agua, viria a se transformar no furacão Laura de Vison (ou mamãe parabólica!). Assim, o público que circulava democraticamente pelas duas casas podia ver, tanto os shows escatológicos de Laura, na escada mais famosa do Rio, quanto as dublagens suburbano-glamurosas de Meime dos Brilhos e suas convidadas. Ganhava o centro. Ganhava o mundo gay e lésbico. O auge das duas casas, afirmam pessoas com as quais conversei e viveram intensamente aquela época, foi o que se caracterizou pela correria das estrelas transformistas, para dar conta de apresentações nas duas casas concorrentes, de exibições realizadas no domingo anterior no Show de Calouros do Silvio Santos. Estrelas como Angélica Ravache, Erick Barreto e Andréa Gasparelli eram as divas da dublagem nacional, antes da hegemonia do bate-cabelo (ataque epilético como diria Suzy Brasil), que tem no palco da paulistana Blue Space sua maior expressão. No outro extremo desse Rio mágico, na zona sul carioca, o carão ficava por conta das apertadas e pseudo-sofisticadas “Sótão” e "Le Jardim" da Galeria Alasca. Ah! As poderosas também circulavam pela descolada “Papagay”, na Lagoa, para ver as incríveis performances de um cast especializado em shows andróginos. O mais engraçado é que quase todos/as freqüentavam as boates do centro, mesmo que nas rodinhas da “bolsa” de Copa, bem em frente ao Copacabana Pálace (a Farme era apenas um tímido projeto de point gay) negassem de pés juntos tal possibilidade (Deus é mais, deviam dizer as mais indignadas!).
Tavez o grande mérito do Casanova tenha sido o fato de ter sobrevivido a uma Lapa ainda marginal e povoada por travestism, não menos marginalizados e descendentes diretos da mítica Madame Satã. Era a Lapa de uma malandragem perigosa, mas meio inocente diante do que conhecemos hoje. Uma Lapa que atraía, ao final da noite, os velhos camburões que, não raramente, observavam com atenção o público bêbado e feliz da vida, que saía da casa . Não sei... mas tenho a impressão que o tiro de misericórdia do Casanova, que recebeu espetáculos de Carlos Machado em sua época de ouro, tenha sido, não somente os botecos mudernos da Lapa, mas o agressivo marketing do “pague pouco e beba todas”, iniciado pelo cult “Buraco da Lacraia” e similares. O velho Cabaré, provavelmente, não suportou a concorrência. Uma pena. Fica aí o relato e a tristeza de uma pessoa que, apesar de não ter vivenciado tantas estórias da casa, vê no seu melancólico encerramento o fim de uma era de boates com shows divertidos, pretensamente glamurosos, mas precursores da arte da dublagem no Brasil. Mas como nada é pra sempre mesmo, vamos esperar e ver o que nos reserva os anos que vêm por aí. Valeu Cabaré!!

2 comentários:

Silvio disse...
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Silvio disse...

Voce meu amigo, Dionisio, estranho no ninho! Em meio a esse mar de mentes inabilitatadas a expressar com palavras, de maneira compreensivel, suas ideias. Veio como, por que nao dizer, " O salvador da pátria". Delicia ler um portugues quase que academico, sem muitas girias ou coisa deste tipo.Idéias super bem organizadas, amei demais! Meu portugues vem se tornando cada vez mais europeu, com vocábulos que até mesmo Deus, nao ousaria a perdoar. Como nao vivo no "Parque da Jurassi" (sei que o teu ingRes nao é bom por isso vou traduzir para o ingles Jurassic Park ;-) ) Procuro ler e atualizar-me na internet. Muitas vezes nao entendo o meu próprio idioma. Isso é somente preguica do povo ou é burrice mesmo? Oque houve com a nossa linguagem? Se poucos sabem o que é o plural, seria demais exigir a concordancia do artigo com o substantivo? Bem, de fato me alegro em ler o teu blog. Esperando no proximo ano poder ter mais tempo com voce. Vamos ferver e por a cidade de pernas pro ar. beijos Silvio!