terça-feira, 16 de setembro de 2008

Reflexões sobre o acesso ao trabalho


Foi numa mesa de bar que um grande amigo me disse que não achava o trabalho humano tão importante assim. Eu que acho que o trabalho continua sendo central na vida humana e que sempre gosto de levantar uma polêmica, ainda mais com amigos, iniciei um debate ali mesmo. Mas como se tratava de uma confraternização, achei que não convinha continuar a celeuma, pois sempre corre-se o risco de sermos indelicados em algum momento. E indelicado é uma coisa que me esforço para não ser. Por isso resolvi escrever este post, que parece meio fora de contexto. Puro desabafo!!! Esse é pra você Steffan. Segura!!
Sempre desconfiei do discurso oficial (leia-se governamental) de que os índices de desemprego estão caindo. Cheguei à conclusão, depois de muito queimar a mufunfa e refletir sobre o assunto, que o discurso não estão de todo errado. Pior. Está tremendamente equivocado. O principal instrumento do qual dispõe os órgãos de medição dos níveis de desemprego em qualquer lugar do mundo é... a procura por emprego. Ou seja, se muitas pessoas procuram emprego, a taxa de desemprego é alta. Seja uma busca nos órgãos governamentais ou nas milhares empresas de RH espalhadas pelo mundo. O problema é que as pessoas não estão procurando emprego porque estão trabalhando. O que não significa que estejam empregadas. Quando digo empregadas quero dizer, trabalhando com e sob determinadas garantias trabalhistas. De proteção social mesmo. Aquelas que garantem o que já estamos carecas de saber e nem sempre usufruir: carteira assinada, FGTS, férias, décimo terceiro, desconto de INSS, vale transporte, etc, etc, etc. Na verdade um grande contingente não está empregado. Não tem vínculos trabalhistas que lhe permitam gozar destes direitos historicamente conquistados. Antes, estão inseridas em um mercado de trabalho informal, precarizado, temporário. Que de tão precário, não permite que paguem sequer o INSS, nem na forma de contribuinte individual, a antiga autonomia. Isso é barra!
No caso do Brasil estas pessoas, homens, mulheres e crianças, são vítimas de uma modernização tardia de processo de industrialização (também tardio), cuja reestruturação produtiva exige um alto grau de conhecimento de tecnologias, cuja maioria das pessoas, principalmente as de gerações mais antigas, não tiveram a chance de acompanhar e portanto não dominam. São excluídos, tanto por uma questão geracional (os mais velhos têm mais dificuldades de arrumar trabalho, isso é fato), quanto por não conseguir acessar tecnologias de ponta exigidas pelo concorrido mercado de trabalho. Mas a exclusão não se resume aos mais balzaquianos. Os mais jovens (digo os jovens pobres) também têm tido dificuldades de alcançar os requisitos admissionais de empresas que exigem, além de um acesso à educação formal, habilidades cada vez mais complexas, tanto na indústria, como no setor de serviços. Neste último, a absorção da mão de obra se dá de uma forma ainda mais cruel e onde vamos encontrar uma saga de desprotegidos como camelôs (a Uruguaiana não me deixa mentir), as trabalhadoras domésticas, os vendedores autônomos (Avon, Natura, etc), e toda uma gama de trabalhadores e trabalhadoras que, por estar minimamente ganhando o mínimo para sua subsistência, não vão gastar dinheiro de passagem para se candidatar à postos de trabalho cuja resposta, provavelmente será negativa. Ouvir NÃO o tempo todo cansa, penso eu. Eu cansaria. Além disso, o discurso que domina o (escasso) mercado de trabalho é aquele que exalta o empreendedorismo como vantajoso (seja seu próprio patrão!). Diante disto, o melhor de fato, segundo o discurso da moda, é partir para atitudes empreendedoras que dissimulam uma falsa liberdade, que na realidade se transforma em fortes dores de cabeça quando, por algum motivo, não se pode trabalhar (os casos de doenças são típicos) e não se pagou o INSS. Trabalhar para si mesmo envereda por um caminho tortuoso que, não raramente, acaba com o tempo livre a que todos tem direito. Perde-se a noção do que é trabalho e o que é lazer ou descanso (se é que há descanso!). No caso das mulheres, esta situação é ainda mais cruel. Geralmente ocorre uma dupla jornada de trabalho, que faz com que as mulheres acumulem atribuições historicamente imputadas ao sexo feminino (como cuidar da casa, dos filhos, marido, dos mais velhos), com atividades (mal) remuneradas. A flexibilização das leis trabalhistas foi o tiro de misericórdia em cima de uma população sofrida e cuja desculpa esfarrapada, tenta nos fazer acreditar que trabalhadores têm o mesmo poder que patrões em uma mesa de negociação salarial. Tudo isso diante de grande crise sindical, com sindicatos (vide a CUT e outras centrais sindicais), que foram cooptados pelo governo. Mentira quando se fala que a flexibilização das leis de proteção de trabalho vão gerar mais emmprego! Todos sabemos que o enorme contingente de reserva que está por aí, necessitando de trabalho, está pronto para assumir trabalhos em condições ultrajantes por pura necessidade. Pronto Steffan! Estou aliviado!

Um comentário:

Carlos Eduardo disse...

Percebo que, hoje em dia, as pessoas estão mais pré-dispostas a preguiça e ao comodismo do que se dispor ajudar a construir uma sociedade mais justa e humana. Por isso que presenciamos essa violência que decorre conosco mesmo e com aqueles que convive ao nosso redor. A facilidade da recompensa para si requer desestabilizar a outra parte que por mérito e esforços conseguiu. Seria bom ficar na rotina para o próprio bel prazer, mas não fomos criados para tal, pois não vivemos no mundo sozinhos. Pensemos o que fariamos se os agricultores, por exemplo, quisezem produzir somente para si. Se estamos nesta terra, é com objetivo de um zelar pelo outro da mesma forma como ele gira.